Por Ricardo Kauffmann e Daniel Kauffmann
“60 milhões de novos aparelhos nos próximos 10 anos”. É o que dizem os engenheiros ao discursarem sobre o processo de implantação da TV digital no Brasil. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais de 90% da população brasileira tem pelo menos um aparelho de televisão em sua casa. Os economistas dizem que esse investimento, por parte do consumidor final brasileiro, será de, aproximadamente, 60 bilhões de reais e poderá transformar o Brasil no maior mercado de televisores do mundo.
Mas a questão é: “Quem ganha com isso?”
Primeiro, os governos com a arecadação de quase 40% em impostos diversos.
Segundo, a indústria e o comércio de aparelhos de televisão, que ficarão com os outros 60% do bolo.
As emissoras de TV, que são os grandes artistas deste show, só ganharão o direito a se endividarem e a possibilidade de continuarem vivendo no setor de entretenimento da mídia eletrônico. Elas deveriam ter sua importância mais reconhecida, já que estão presentes em 98% dos lares, conforme IBGE-PND (Pesquisa Nacional de Domicílios). O número médio de aparelhos ligados no horário nobre não tem paralelo em nenhum outro país. Isso demonstra a alta eficiência da produção e da programação da televisão brasileira. Mesmo assim, as emissoras de televisão ficam com menos de 0,1% do PIB nacional. Este é um caso típico de sucesso de público, mas fracasso de bilheteria.
Nos EEUU, para acelerar o processo, o governo está distribuindo até 2 cupons de US$40 cada, para todas as residências do país, para a compra de Set-Top Boxes.
No Brasil, o governo poderia, pelo menos, isentar as emissoras de impostos pelo prazo de implantação da TV Digital.
O QUE MUDA
A TV digital, num primeiro momento, possibilitará uma grande melhora na transmissão, na imagem e no som recebidos pelos telespectadores.
A transmissão será feita através de um canal de UHF e a transmissão analógica só existirá até 2016. A transmissão digital terá absoluta fidelidade ao sinal gerado pela emissora, chegando ao receptor sem nenhuma perda ou interferências, eliminando os ruídos (chuviscos) e fantasmas, presentes nas recepções atuais. Tecnicamente, o Brasil adotou o SBTVD (Sistema Brasileiro de Televisão Digital), que tem como base o sistema adotado pelo Japão, o ISDB-T (Integrated Services Digital Broadcasting – Terrestrial). Porém com duas importantes modificações:
- A compressão para HDTV é MPEG-4 no lugar de MPEG-2, e;
- O middleware Ginga, desenvolvido no Brasil mas totalmente aderente ao ARIB (Association of Radio Industries and Businesses).
A imagem muda no formato da tela e na qualidade. A tela sai dos atuais 4X3 para 16X9, se aproximando do cinema. A qualidade da imagem sai do NTSC/PAL-M para o HDTV. Mudando dos atuais 345.600 pixels (720X480i), para 2.073.600 pixels (1920X1080p), 6 vezes mais resolução.
O som terá um aumento na qualidade, passando a ser equivalente ao do CD e receberá a possibilidade de multi-canais como 5.1, presente nos filmes em DVD.
Posteriormente, com a implantação do GINGA nos receptores e nos set-top boxes, virá a real interatividade que possibilitará uma expansão ilimitada de novos negócios. O GINGA é camada de software intermediário (middleware) que permite o desenvolvimento de aplicações interativas para a TV Digital. Por exemplo: Ao assistir um filme estrelado por Brad Pitt você poderá num simples clik descobrir a marca e onde comprar os óculos escuros usados por ele.
A RECEPÇÃO
A transmissão digital tem um lado bom e um lado ruim. O bom é que quando “pega” ela é absolutamente fiel em relação a qualidade. Os testes em São Paulo demonstram que na maior parte da cidade a recepção será perfeita. Mas quando não “pega” não tem meio-termo, a imagem congela ou tela fica azul. O consumidor terá que fazer algum investimento em antenas individuais e para poder aumentar a cobertura as emissoras terão que instalar vários “gap fillers”, pequenos retransmissores.
Outro problema é com relação às Operadoras de TV por Assinatura. No Brasil elas são obrigadas a exibir os canais abertos. Mas elas não são obrigadas a serem digitais nem transportar os sinais em HDTV. As emissoras abertas não concordam com a conversão de seus sinais de HDTV (alta definição) para SDTV (qualidade atual). Como ainda não existe, no Brasil, TV a cabo em HDTV, os Set-top Boxes e os televisores digitais terão que ter entradas para TV a Cabo e para TV Aberta.
O QUE BUSCAR NOS NOVOS TELEVISORES
O receptor deverá ter um sintonizador digital no padrão SBTVD, uma tela com 2 milhões de pixel, um codec de vídeo que atenda ao ITU-T H.264 (MPEG-4), um codec de áudio MPEG-2AAC e facilidade de interatividade compatível com o GINGA. Os televisores digitais deverão ter entradas analógicas (Vídeo Composto, S-Video ou RGB) para permitir a utilização dos aparelhos de DVD e de VHS existentes. Mas deverão ter também entradas digitais nos padrões de conexões DVI ou HDMI para possibilitar a utilização dos novos aparelhos de DVD em HDTV bem como os aparelhos de “games” eletrônicos em HDTV.
Uma nova questão é se o televisor deve ter saída digital ou somente analógica, ou por outra, se a saída deve ser de alta qualidade (HDTV) ou se deve ser de qualidade atual. Esta dúvida ocorre por causa da possibilidade de copias não autorizadas dos conteúdos transmitidos pelas emissoras.
Escrito por Kauffmann
Escrito por Kauffmann 